sexta-feira, 1 de abril de 2016

ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DE MS NÃO DEIXAR INDÍGENA DEPOR NA LINGUA TERENA

POR ANTONIO CARLOS SEIZER

O FÓRUM ESTADUAL DE EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DE MATO GROSSO DO SUL e o MOVIMENTO DE PROFESSORES INDÍGENAS POVOS DO PANTANAL E CONE SUL representados neste ato por seus membros permanentes, vem a público apresentar seu REPÚDIO à maneira como a profa. Ms. MARIA DE LOURDES ELIAS, foi tratada no depoimento de Paulino da Silva, líder Terena da Terra Indígena Pilad de Rebuá (Miranda/MS) na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a ação/omissão do Estado nos casos de violência contra os povos indígenas sul-mato-grossenses (2000-2015), conhecida como a “CPI DO GENICÍDIO”.
Entendemos que, mais uma vez, o Estado de Mato Grosso do Sul, representado neste caso pelos membros da CPI, nega o direito e o reconhecimento aos povos indígenas de sua diferença e, nesse caso, da sua diferença linguística, desrespeitando a própria Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 231, que reconhece as línguas indígenas e consequentemente o seu ampliado uso; não se restringindo apenas nos espaços ditos de “índios”- a aldeia. 
Sabemos que uma CPI deve-se atentar aos códigos de ética e respeitabilidade; bem como aos seus depoentes a igualdade de direitos em suas diferenças, como um dos fios que garante a dignidade da pessoa indígena. 
O Movimento de Professores Indígenas não é contrário a investigações, apurações e condenações, desde que não fira o princípio básico do direito a resposta do depoente, e muito menos a condenação antecipada por atos que possuem impressões unilaterais como gênesis da verdade, visto que, o papel de uma CPI é o de averiguação.
Compreendemos que ao ser convidada a prestar um serviço de interprete durante a sessão na Assembleia Legislativa, e a negativa dos membros da comissão, por entender que o líder Paulino da Silva, não precisava de seus trabalhos, a prof. Ms. Maria de Lourdes, respeitada por sua trajetória de vida, conduta profissional excelente e incorruptível posicionamento político-indígena, foi citada como conivente da opção do depoente Paulino em falar na Língua Terena e que foi entendida como uma afronta aos membros da referida CPI, por possuírem vídeos em que o mesmo se expressa em Língua Portuguesa, sendo imediatamente apontado como um sujeito mentiroso e a professora Maria de Lourdes, sua cumplice, sendo coagidos com frases de intimidação, no sentido de saírem do recinto algemados. Segundo os deputados integrantes da CPI, o depoente possui fluência na Língua Portuguesa, mas questionamos, embasados em estudos, que afirmam que a “fluência” é a qualidade do sujeito se expressar claramente, e isso nos remete, a observar que o ato da clareza na expressão depende de um processo mental que o “fluente” reelabora em sua língua materna. 
Consideramos ainda, que a Língua Portuguesa formal, não é falada e muito menos compreendida até mesmo por aqueles que a utilizam como língua materna, imagine no caso dos povos indígenas, que a utilizam, sim, porém, não estão seguros do que entendem e/ou afirmam, pois, o vocabulário usado é “pobre” na concepção do “falante fluente”. Se conhecer palavras, construir frases e se expressar em outra língua que não seja, a sua; é ser fluente, somos um país fluente em Língua Inglesa, entre outras, por fazer parte de nosso dia-a-dia palavras como: mouse, overbooking, online. 
Este ato repugnante, expressa um desconhecimento e/ou uma necessidade de utilizar “óculos coloniais” para ler apenas o que beneficia a elite desse país, e não os diferentes e suas diferenças. Com isso, joga no lixo, os esforços pessoais e coletivos do processo de escolarização dos indígenas de diversas etnias, ao propor que Língua Indígena é “coisa de índio” e que deve ser falado nas aldeias, não compreendendo minimamente, que no século XXI, há municípios que cooficializaram a Língua Indígena devido aos esforços de décadas de indígenas e de indigenistas. 
Sendo assim, REPUDIAMOS, ações que ferem o direito constitucional, constrange uma professora que estava prestando um serviço a bem das verdades coletivas dos povos indígenas do Brasil e sobretudo a ameaça de processo por simplesmente, desejar a depor em sua língua materna, e se é a verdade que buscam, deixem os indígenas deporem em sua língua, pois a fala para nós o vento não leva, nossos discursos são nossa própria alma.

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